“América você é uma vadia má”
Resenha
Por Leandro Alves e Diego Dantas
A cada álbum lançado Kendrick Lamar solidifica o seu status, já quase irrefutável, de melhor rapper de sua geração. E em To Pimp a Butterfly não é diferente. Ele passeia por diferentes atmosferas que fazem contraste com o ódio e o amor, ganância e humildade, autoridade e autonomia, e até mesmo entre Deus o homem e o Diabo. Produzido por Pharrel Williams, Flying Lotus, e Dr. Dre, o álbum carrega uma tintura jazzista com fortes influências do Soul, Funk e traz, obviamente, o Rap.
E com essa mistura pouco convencional, Kendrick não segue com exatidão a fórmula certeira de seu excelente álbum antecessor, Good Kid, M.A.A.D City, e muda de forma surpreendente o cenário musical, bem como sua própria discografia, trazendo um trabalho quase anti-mainstream, mas revolucionário, em uma era musical irresoluta.
Em TPAB, Kendrick desconstrói o conceito estabelecido de álbum. Uma vez que em cada música ele cria surpreendentes e, em grande parte, tristes narrativas abusando de seu talento de storyteller. O álbum soa como uma viagem ao imo de sua psique, expondo seus medos, suas angústias e revela os traços de uma depressão maciça que o acompanha por quase toda a sua vida. A inesgotável luta por igualdade também se faz presente, bem como contra o racismo tão latente na sociedade americana, pois além de expressar sua própria dor e sofrimento, como na autodestrutiva faixa “U”, o incentivo à luta e o orgulho em ser negro é ostentado em faixas como “King Kunta”, “I” e “Alright”, música essa que se transformou no hino do movimento Black Lives Matter, que luta contra o abuso policial e a decadência socioeconômica que atinge as comunidades negras nos EUA.
De lagarta à borboleta é a tradução do curioso título do disco. A lagarta, descrita na última faixa, “Mortal Man”, é retratada como “a prisioneira que as ruas conceberam”, enquanto a borboleta representa o talento, a evolução e a beleza. A narrativa estabelecida nesse álbum estava sendo previamente pavimentada desde M.A.A.D City, onde fomos apresentados a um Kendrick inocente, uma lagarta que, após o sucesso crítico e comercial, evoluiu para borboleta. Porém, pós essa transformação, se deparou com um sistema de posse personificado aqui como Lucy. O demônio que consome os mais novos artistas na indústria.
Funcionando como o perfeito antagonista, Lucy possui os seus próprios versos nas faixas “Wesley’s Theory” e “For Sale? – Interlude”.
“O que você quer? / Uma casa ou um carro? / Quarenta acres e uma mula, um piano, uma guitarra? / qualquer coisa, olha, meu nome é Lucy em seu dólar. / Filho da pu**, você pode morar no shopping. / Eu conheço o seu tipo.”
E como em resposta na faixa “For Free? (Interlude)”, talvez a mais curiosa do álbum, uma vez que é construída com flow de Rap em uma base frenética de jazz, Kendrick diz:
“Ah américa, você é uma vadia má. / Eu já colhi meu algodão e isso fez você ficar rica. / agora meu pa* não é de graça”
Analogia que se faz presente pois se a indústria, ou melhor dizendo, se Lucy quiser o talento de Lamar deverá pagar, e muito.

Compton domina a casa branca. Por cima do racismo e a injustiça.
Montado em cima desse alicerce crítico o álbum se constrói como se tivesse vida própria. Em seu desenrolar uma música contrasta com a outra, e ao final de diversas faixas a estrofe de um poema é repetido como um mantra: “I remember you was conflicted” (lembro-me de que você estava em conflito). Poema esse que vai crescendo de proporção, tornando-se um épico que, intencionalmente, nos prende, nos instiga a continuar ouvindo o álbum do começo ao fim, para que assim, apenas no final, ele possa nos surpreender como no melhor Plot-Twist hollywoodiano, de maneira que todo fã de música, todo o fã de Rap, principalmente, se sinta desconcertado pelo rumo tomado como se fizesse parte desse épico minuciosamente construído pelo perfeccionismo quase destrutivo de Lamar.
TPAB não é o tipo de disco que agrada logo de primeira, ele não é feito para isso, já que não possui o usual apelo comercial tão buscado por outros artistas. É um trabalho característico que traz uma narrativa aprofundada. Não possui os beats e nem as rimas que são repetidos de maneira desgastante por aí. Se diferencia pelos vocais melosos como, por exemplo, na elegante e sexual “These Walls”, ou pelo flow multi silábico desconcertado de “Momma”. Em sua construção, um tanto peculiar, ele te leva para um rolê pós M.A.A.D City, onde um jovem Kendrick sai de Compton, lugar onde a juventude morre e mata aos montes, e se depara com um sistema de posse que se prolifera e envenena seus mais recentes artistas. E Lamar foi vítima.
Por toda sua complexidade, por sua excentricidade, profundidade e transparência, TPAB tem o mérito de ser colocado por entre os melhores álbuns de Hip-Hop da história. Ao lado do mágico The Low end Theory, do prestigioso Miseducation of Lauryn Hill, e até mesmo do até hoje intocável ILLMATIC, de Nasir “Nas” Jones. Kendrick faz jus por refletir a sua alma desconcertada, por retratar impecavelmente seu desconforto para com a sociedade pecadora-industrial na qual vive e decidiu, de maneira heroica, ir de encontro à todas essas adversidades com todas as suas forças restantes.