Saúde
Musicoterapia, um recurso terapêutico por meio da 4◦ arte
Aliada ao ritmo e a melodia, método auxilia na manutenção do estado de saúde, relacionamentos sociais e desenvolve formas de expressão em seus usuários
Por Leandro Alves

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FOTOS: Leandro Alves
Os internos andam devagar, uns sozinhos, alguns amparados pelos ajudantes. Ou estão com um olhar distante duelando seus próprios demônios, causados pela idade ou doenças como demência ou Alzheimer. Mas vivem em harmonia. Nesse local onde o tempo é inerte. Sempre pacato, num compasso aparentemente imutável. Mas ao som do primeiro acorde tudo ganha cor. Nesse exato instante o tempo volta a se mover em seu ritmo, o ambiente ganha vida e é tomado por uma alegria contagiante.
Musicoterapia é o que traz a vida para o lugar. Surgiu após a 2ª grande guerra, quando músicos eram convidados a tocar em hospitais. E graças a um progresso físico e mental dos pacientes essa área começou a ser desenvolvida, dando gênese a musicoterapia. Com ritmo, melodia e harmonia, colabora no tratamento e prevenção de distúrbios psicológicos e motores. É um espetáculo. Mas como toda exibição precisa de plateia, o Centro Mãe Luiza foi palco.
Localizado no Jardim do Mar, São Bernardo do campo, o Centro Dia Mãe Luiza Foi fundado há 8 meses por Fernanda Rodrigues de Sousa, proprietária do espaço. Um centro dia é um local que acomoda o idoso apenas durante o dia, para que a noite ele possa retornar para o seu lar. O nome do local é em homenagem a avó de Fernanda, Luiza Izabel dos Santos, que antes de falecer necessitava de um local com os atributos do centro dia. “Toda vez que a gente pronúncia esse nome, temos na cabeça que queremos oferecer tudo aquilo que a gente ofereceria para nossa avó”.
Felipe de Camargo Marques é o maestro, ou melhor dizendo, o musicoterapeuta que eleva o bem-estar de todos. Há 2 anos no ramo, escolheu a área pois sempre teve uma conexão com a música. “Eu entendia, de certa forma, algum poder terapêutico na música”. Além de tê-la como ramo, a mantém como companheira nas horas de lazer. Improvisa no jazz e no rock em suas bandas por aí, estuda música e admira um bom show ao vivo. “Sempre se manter gostando de música é importante para o musicoterapeuta”.
Ao chegar no Centro Dia segue o mesmo educado roteiro. Vestido com seu avental, vai cumprimentando a todos e, entre brincadeiras, apertos de mão e os gentis beijos recebidos, pergunta como cada um deles está. Sempre acompanhado de perto por seus assistentes: violão, bongô, tantã e xilofone. Cada um com um papel vital, já que são de fácil uso, possibilitando a participação de todos que queiram ir além de ouvir. “A relação das pessoas com música é especial, ela é única”.

“A relação das pessoas com música é
especial. Ela é única”.

A graduação de musicoterapia no brasil foi criada apenas no ano de 1972 no Conservatório Brasileiro de Música, localizado no Rio de Janeiro.
Nessa graduação o musicoterapeuta é preparado para despertar os potenciais individuais e resgatar a identidade de cada pacientes. ele pode recorrer a várias modalidades terapêuticas dependendo da vontade e capacidade dos usuários.
Desde a sua consolidação como terapia a música tem sido usada com maior frequência como um modo alternativo de cura. Entre os pacientes que mais utilizam essa ferramenta terapêutica estão os autistas, deficientes mentais, gestantes e, claro, os idosos.
Gênese terapêutica musical
Com seu violão, Felipe dita o compasso da prosa musical.
FOTO: Leandro Alves
A mescla de gerações que compõe a musicoterapia
FOTO: Leandro Alves
A plateia

"Eu me sinto muito leve.

Me sinto bem, tocando, ouvindo..."
De fala jovial, Margarida Cassales Camossato é uma das pessoas da plateia. Apaixonada por música, cita os discos de vinil que possuía. Hoje com 87 anos, convive no centro dia e se lembra de Nelson Gonçalves, o seu artista predileto.
“Se tiver uma pessoa que fala: ‘ai, eu não gostava do Nelson’, é dor de cotovelo, porque ele não quis dormir com ela, né”. Completa em tom humorado.
Inspiração e leveza são definidas por Margarida ao participar da consulta. “Aquela pessoa ranzinza que fico de vez em quando some. Me sinto diferente”. Com dificuldade na locomoção devido a um ligeiro problema na perna, integra a cantoria sempre no mesmo canto acompanhada de perto por sua bengala. Absorve tudo como se estivesse ouvindo pela primeira vez. “Eu gostaria de ter estudado música”.
Yoneko Kawagoe compõe o grupo de internos. De família japonesa, vive desde sempre no Brasil. Começou cedo a trabalhar e não teve contato com música. “Trabalhei desde os cinco anos na roça. Na enxada dura mesmo. Então não participei desse negócio de música”.
Hoje aos 81 anos, participa das aulas com leve timidez por não ter conhecimento musical. Mas com os instrumentos colabora no compor dessa prosa musical. Com o bongô ou xilofone segue o ritmo de Felipe. “Eu me sinto leve. Me sinto bem, tocando, ouvindo”, finaliza em devaneio.
Por sua facilidade em integrar, ou por seus incontáveis benefícios, a musicoterapia se destaca como maneira de tratar. Assim como as antigas bandas de Rock ou Jazz, que ficaram marcadas através de seus sons, a musicoterapia, da mesma maneira, é capaz de impedir seus pacientes de caírem no esquecimento. Ela ajuda a mantê-los na narrativa nem sempre harmoniosa da vida. Pois nesse cenário quem canta, literalmente, os males espanta.
Margarida absorvendo a letra das músicas
FOTO: Leandro Alves
Yoneko dominando os instrumentos
FOTO: Leandro Alves