top of page

Opinião

Som sertanejo

De raiz rural à destino universitário

Anchor 5
colagem sertanejo.jpg

Por Beatriz Brito

O cenário musical brasileiro não é o mesmo se formos analisar as décadas desde o que chamamos de música popular brasileira passou de fato a ter este nome. Tudo o que conhecemos partindo da bossa nova, até o movimento tropicalista e chegando ao sertanejo universitário que está em alta atualmente, mudou muito com o passar dos anos.

O que hoje denominamos como o “sertanejo raiz” teve início na década de 1910, nas regiões camponesas do Brasil, sempre cantando sobre amores ou a vida do homem do interior. A música caipira geralmente era composta por moradores e trabalhadores do campo, muitas vezes “matutos” e com experiências diferentes do habitante da cidade grande.

Este gênero acabou se tornando um patrimônio brasileiro, inclusive contou com dois filmes representativos: 2 Filhos de Francisco: A História de Zezé di Camargo & Luciano (2005) e O Menino da Porteira (2009). Ambos narram a história do sertanejo sofredor, o homem do Interior que batalhou para conquistar a carreira na música, enfrentando obstáculos e muitas vezes a pobreza. A dupla de irmãos Chitãozinho e Xororó cantam sobre um amor perdido no verso:
"E hoje o que encontrei me deixou mais triste.
Um pedacinho dela que existe.
Um fio de cabelo no meu paletó".

Em contrapartida Zé Ramalho narra um trabalhador fascinado por sua construção mas invisível aos olhos da sociedade.
"Tá vendo aquele edifício, moço?
Ajudei a levantar
Foi um tempo de aflição
Era quatro condução
Duas pra ir, duas pra voltar"

Mas voltando aos anos 10, o que levou a música de interior para o topo das paradas no Brasil com um novo nome, o sertanejo universitário? 

No início da década, em meados dos anos 2000, a energia sertaneja mudou. As letras passaram a retratar ostentação, traição e a famosa “sofrência”. Adquirindo uma nova identidade jovial de músicos muitas vezes estudantes universitários.

Esta, por sua vez passou a ser um grande alvo de críticas para os defensores da "música boa",  saudosos que não arredam o pé ao defender que a música atual está em defasagem, percebemos um fenômeno chamado: monocultura, a especialização em uma só cultura. O movimento do sertanejo universitário se tornou extremamente forte nos últimos anos e foi o ritmo mais ouvido entre 2016 e 2018 e de certa forma transformou o mercado e a nossa forma de curtir a música brasileira.

Mas quando juntamos comércio e música na mesma frase percebemos que o fenômeno não se trata apenas de um surto repentino de preferência pela sofrência, existe um grande investimento de capital por trás do sucesso. A indústria cultural funciona como na música “Dona Maria” dos compositores Tiago Braga e Lucas Lima, a partir da qual esta pede permissão para namorar sua filha, nesse caso a moça como a música do gênero universitário. Assim ecoam cantores como Nayara Azevedo com “toma aqui os 50 reais”, “chego apaixonado e saio arrependido” de Marilia Mendonça e “Cê fica milu, e milu, e me iludindo” do já veterano Gusttavo Lima, entre outros.

Padronizando o gênero e transformando-o em algo cativante até mesmo para quem não conhece essa realidade do universo imaginário rural. Abordam-se os assuntos mais cotidianos de jovens adultos, com um ritmo mais pop e atual. Com isso não se torna apenas uma música qualquer, mas sim um evento, desta forma as festas e shows, como: VillaMix, Farraial Sertanejo, Villa Espaço Country possuem um valor monetário alto, socializam pessoas de várias tribos, gêneros e cantores.

Por fim, o estranhamento vem por vivermos uma nova era, a música assim como qualquer outra arte sempre encontra uma maneira de se reinventar. O sertanejo universitário se moldou a uma ideia de festividade banal, por assim dizer, mas condizente com a realidade atual. 

 

A música de raiz continuará sendo um dos nossos patrimônios mais importantes  e devemos preservá-la para as futuras gerações ou as antigas que ainda desejam chorar e amar ao som de Inezita Barroso ou matar a saudade da roça. Mas também dar espaço aos nossos futuros compositores e músicos, afinal o Brasil é para quem tem orgulho e nosso som sertanejo é para quem sente o sangue latino pulsar mais forte cada vez que um acorde de viola tocar.

Quem eu quero, não me quer


Quem me quer, não vou querer


Ninguém vai sofrer sozinho


Todo mundo vai sofrer

E nessa loucura de dizer que não te quero
 

Vou negando as aparências Disfarçando as evidências

Siga-nos

  • White Facebook Icon
  • White Instagram Icon
  • White SoundCloud Icon

© 2019 por Agência Fênix. 

bottom of page