
Entrevista

Renato
Patriarca


FOTOS: Leandro Alves e Diego Dantas
Por: Keise Tiffany
Renato Patriarca, produtor musical, diretor artístico, engenheiro de som e envolvido também com marketing digital, como todo amante de música, sua paixão inicia quando começa a tocar e acompanhar a banda de seu irmão mais velho. Decidiu então estudar música e mais especificamente gravação e produção. Seu instrumento, como define, é a programação e os “beats”. Após o convite de Rick Bonadio para gerenciar o novo estúdio, ele permanece há 20 anos no Midas Studios colocando em prática sua paixão.
Renato surpreende-se quando descobre que vamos falar sobre funk, acredita que não tem conhecimento suficiente para discutir sobre o assunto e depois prova que estava enganado. Fez coproduções junto ao Dj Batata, o primeiro single de Mc Biel, músicas também de Mc Pocahontas, Jojo Toddynho entre outros mais. Em meio a tantas discussões que o funk nos traz, ele transparece em suas expressões a reflexão e ideias que julga importante.
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Mousiké: O funk historicamente traz o reflexo da realidade brasileira com suas músicas que denunciam os problemas sociais, falam sobre armas, drogas e a vida na favela. O preconceito com o gênero vem a partir da ideia de o ritmo fazer apologia à criminalidade?
Renato Patriarca: Cara, é muito difícil fazer uma análise rápida em cima dessa crítica. Se você for analisar a música eu diria que o funk é uma batucada dos homens das cavernas, pode soar meio pejorativo mas é um pouco por serem poucas melodias, poucas harmonias e algo mais simples, mas não é porque é simples que é pior só é diferente, e é simples porque é pra ser hipnótico, pra mexer com o sentimento mais individual não intelectual entendeu? Quem é mais musicista, que tem um conhecimento mais apurado, aguçado geralmente rejeita o funk pela pouca informação acadêmica ou musical que ele carrega. Também pelos temas que aborda e que 70% do funk hoje é sexo, é um pouco dúbio por ser desde o empoderamento feminino ao rebaixamento das mulheres, ele também está se espalhando pela comunidade LGBT então vem a crítica da parte mais conservadora e mais “careta” da sociedade.

Início da entrevista com Renato analisando o assunto abordado.
FOTOS: Leandro Alves e Diego Dantas

Mousiké: As mulheres têm conquistado cada vez mais espaço no mundo do funk, modificando a imagem “objetificada” que os homens construíram em suas letras. Será que o funk será a ferramenta para mudar o pensamento de toda a sociedade sobre sua postura?
Renato: Eu acredito que é uma das ferramentas porque é uma maneira de comunicação né, acaba sendo uma expressão cultural então acredito que de uma certa forma ajuda. O problema é que, aí é só minha opinião, a gente está passando por uma transformação muito grande ainda então existe uma mistura de ideias e conceitos em todos os lugares. Nesse sentido, o funk ajuda a “quebrar”, a “bagunçar” mas não acredito que o funk vá arrumar. Nós estamos nesse processo e ainda vai mudar, se estabilizar, mas não vai ser com o funk, ele só vem para quebrar as amarras, os conceitos, fazer barulho. É como foi o hip hop no final dos anos 70 e começo dos anos 80 nos Estados Unidos, para quebrar a barreira do negro americano e como teve sua função no Brasil também, depois o Axé com a função da cultura nordestina para a cultura do sul, vem nesse sentido.
Mousiké: Você falou da questão de o funk vir para quebrar paradigmas e como produtor, você já encontrou alguma dificuldade no sentido de outros olharem sua produção de funk como menosprezo a profissão, o trabalho e incentivo, ou até em outros segmentos musicais?
Renato: Vários segmentos têm isso, o funk é um deles e já sofri sim um certo preconceito, talvez pela minha posição, um preconceito mais em forma de brincadeira, não me atingindo mas atingindo o trabalho de uma forma geral. Não só com o funk, às vezes até com outros estilos, a própria música eletrônica já sofreu com isso no passado também até virar um mainstream, o papel do DJ ainda é mal visto e mal entendido, então tem isso sim.
de escolaridade, na educação, é completamente destruída.
Mousiké: Muitas das vezes, o ritmo aborda também assuntos de consumismo desenfreado, o desejo da população periférica de “melhorar de vida” de estar na classe alta com produtos de luxo, ostentação e coisas nesse sentido. Seria ele então uma utopia social? Saindo do paradigma de problemas da sociedade para tentar se tornar uma elitização?
Renato:: Não sei se vem a se tornar elitização mas que traz esse problema, traz. Porque chegou uma hora que ficar falando só do seu dia a dia, e acho que o funk veio pra ser um contraponto do hip hop da periferia que historicamente é muito de protestos e fala sobre os problemas, que os caras cansaram disso e começaram a falar “meu, não quero mais ficar falando de problema, quero falar do que quero ter, não do que não tenho”. Eu acho isso ruim porque a sociedade não está resolvida e não é que o cara vai fazer funk e vai conseguir ganhar esse dinheiro e a periferia vai conseguir crescer nesse sentido. A economia não está funcionando para essa população, então fica uma coisa bem utópica mesmo que até atrapalha, de certa forma, porque vira isso de funkeiro que está se dando bem tem que começar a andar com um carro melhor e se ele não estiver então ele não se sente se dando bem e fica a cultura do consumismo que não está bem resolvida, o funk atrapalha nesse sentido.
"O funk é um reflexo total da nossa estrutura
Mousiké: A partir disso, ele perderia sua essência de protesto? Fugindo de sua realidade pobre e se entregando ao desejo de fazer parte da classe alta.
Renato: É que o funk já deixou de ser protesto nesse sentido já faz um tempo, como eu disse, 70% é sexo então o funk está muito mais hedonista e “foda-se tudo” “quero me divertir” do que protesto, do que “vamos mudar o mundo”, acho que faz uns bons anos que o funk perdeu isso. Faz um paralelo a música eletrônica do que era nos anos 90, anos 80 ou até anos 2000 dependendo do país que vai analisar, que um rock dos anos 70 que era de protesto. O funk é muito mais “vamos nos divertir, vamos nos drogar e foda-se amanhã” e é o puro entretenimento, ninguém tá nem aí e tanto é que as letras falam isso, nenhuma letra fala sobre salário, sobre a violência no sentido que sofrem e não a gratuita como mostram, de como está o capitalismo e a sociedade, não vem propor nada novo.
“Os caras cansaram disso (os protestos) e começaram a falar ‘meu, não quero mais ficar falando de problema, quero falar do que quero ter, não do que não tenho”.

Mousiké: Como produtor, como você viu essa mudança que o mercado teve de, por exemplo, há 20 anos atrás era sucesso quem tinha milhões de discos vendidos, passou para visualizações no YouTube, agora passando para Streaming, como você vê essa mudança?
Renato: É uma evolução natural, o mercado da música tá sempre mudando. Há 100 anos atrás era quantos shows o cara fazia , ou quantas partituras ele vendia, depois virou os singles e discos de vinil, depois fitas, CDs, então sempre vai evoluindo conforme a população e a sociedade muda sua forma de consumo. Hoje em dia eu não diria só o streaming porque o YouTube está muito forte ainda, o que mudou na verdade é que abriu muito mais o espaço, não tem mais um sucesso ou uma maneira de medir o sucesso, têm várias. Isso acaba gerando um mercado mediano que é bom. Mediano no sentido de você ter uma massa que realmente às vezes não faz milhões de reais com a música mas consegue se manter e se autopromover e manter a “roda girando” e a estrutura funcionando para fazer mais músicas, mais shows. Então o sucesso hoje em dia não é só o número de streamings que se tem que não é só isso que faz verão, você tem que ter várias coisas. Têm várias pessoas que fazem muito sucesso com show e não tem nenhum streaming, e tem muita gente no YouTube ou esses funkeiros que têm milhões de visualizações e não consegue fazer um show. Ou faz um baile funk e depois de seis meses não tem carreira. Então são várias formas de sucesso.
No estúdio Midas Studios, Renato expõe sua opinião sobre o funk, sertanejo e cenário da música no Brasil.
FOTOS: Leandro Alves e Diego Dantas
Mousiké: Então não tem uma escala para definir se tem sucesso ou não tem?
Renato: Tem uma escala maior que é obviamente quando se consegue performar bem em vários desses pontos e aí você diz que está bem, se tem grandes números de streaming, faz shows e tem boa visualização no YouTube, toca em rádio, é um conjunto. Agora o problema do número digital é que tem muita manipulação então nem tudo que está no topo realmente está fazendo sucesso.
Mousiké: Na questão do YouTube, como você vê, não só de funk mas num todo, esses cantores que explodem com uma música em visualização e depois não dão continuidade?
Renato: É porque é muito rápido né, é muito volátil o mercado digital. E aí está o problema de o artista não estar preparado. Não ter uma equipe ou estrutura por trás dele. Isso acontece com 70% dos funkeiros que você ouve o hit da semana, o cara está lá bombando e depois de duas semanas você não ouve mais sobre o MC. Até se consegue fazer uns bailes, ganhar um dinheiro mas não sustenta, se não tem uma estrutura, não sustenta. Só fica quem tem estrutura, quem não sabe o que está acontecendo na sua volta do tipo “Ah, estourou”, como? Não sei, em um mês ou dois meses, some. Ou dependendo do sucesso, leva mais tempo mas também some.
"A gente produzia com o Ivo Mozart, ele falou 'olha, tenho uns amigos lá de Pirituba, fazem uns raps, são legais, que tal fazer uma brincadeira com eles?' E eu disse, 'beleza, faz lá' e eles fizeram Vagalumes achei legal pra caramba falei pra trazer aqui pra eu dar um tapa na música, aí cortei partes, fiz umas brincadeiras, coloquei o violão, mixamos pra valer, masterizei e entreguei para os caras assim: 'Toma, é de presente' e nem achei que era de um potencial tão grande e virou o sucesso que virou."
Mousiké: E você como produtor trabalha isso com seus artistas?
Renato: Trabalho, claro. A gente tem sempre que cuidar para que isso não aconteça. O fato de a gente ter a estrutura aqui já ajuda isso para a pessoa não se perder.
Mousiké: Parte de vocês também de identificar, por exemplo, alguém fez sucesso então agora vamos estruturar isso para que mantenha?
Renato: Claro, claro. Parte da gente desde o início, até antes do sucesso que a gente não sabe quando que ele vem nem como, então até antes dele acontecer a gente já está trabalhando isso. E aí é com estrutura, reuniões constantes, conversas, pensamento do direcionamento artístico porque precisa de um direcionamento. Um exemplo que eu posso dar é o do Pollo com Vagalumes, que a gente produzia com o Ivo Mozart só que não estávamos acertando as músicas, aí ele falou “olha, tenho uns amigos lá de Pirituba, fazem uns raps, são legais, que tal fazer uma brincadeira com eles?” E eu disse, “beleza, faz lá” e eles fizeram Vagalumes achei legal pra caramba falei pra trazer aqui pra eu dar um tapa na música, aí cortei partes, fiz umas brincadeiras, coloquei o violão, mixamos pra valer, masterizei e entreguei para os caras assim: “Toma, é de presente” e nem achei que era de um potencial tão grande e virou o sucesso que virou. Mas no Pollo eram meninos do rap que de repente se viram com um hit que não era do ramo deles e nunca tinham produzido nada tão contundente e aí deu no que deu, fizeram um super sucesso com a música mas não conseguiram fazer um segundo porque eles não sabiam fazer, essa que é a questão.
Mousiké: E o crescimento do funk na indústria musical tem sido muito elevado nos últimos tempos. Você acha que o funk já se tornou uma música popular brasileira? Por ser consumida principalmente nas classes mais baixas.
Renato: Sim, é que esse é um termo que gera muita confusão porque se você for pegar o significado dele, ou seja, música que é popular no Brasil e tem várias coisas que cabem nisso até mesmo antes do funk, o brega já foi popular mas esse termo foi usado muito pra estilo de música brasileira feito até mesmo meio elitista porque era feita num nicho Rio - São Paulo e um pouquinho no nordeste mas enfim, nesse sentido é difícil falar isso por causa do estilo e de ter a MPB mas que já é popular no Brasil é há muito tempo. No sentido da palavra mesmo ele é, ele é popular pra caramba é até um dos mais agora, um fenômeno, e acho que não vai parar tão cedo, pode perder um pouco da força com o mainstreaming porque cansa um pouco uma hora né.
Mousiké: Pegando esse gancho de ser uma música popular brasileira, essa influência que vem do exterior pode acabar prejudicando? Já que para fora também está ficando famoso também e com a pegada do pop junto.
Renato: Não, não prejudica não porque o pop assimila tudo e vice-versa, na verdade ajuda a expandir porque hoje você tem funk espanhol, em outros países latinos, na Colômbia está se fazendo funk, então é um estilo que está indo assim como a gente aprimorou e utilizou o Hip Hop para fazer o Hip Hop brasileiro, o Rock para fazer o Rock brasileiro e cada país tem seu ritmo e vai assimilando. Esses dias escutei um funk espanhol, bem funk mesmo mas com o castelhano. Por causa disso, é uma coisa muito cultural e gutural, ele mexe com os sentimentos e a sensação da pessoa por isso é um sucesso. Na música eletrônica tem muito disso e ela expande territórios porque é uma linguagem que não precisa da língua, da palavra.

Renato com suas expressões e ênfases ao responder.
FOTOS: Leandro Alves e Diego Dantas
mas não acredito que o funk vá arrumar."
Mousiké: A Anitta mesmo é uma das artistas que está explorando esse mercado para fora com parcerias internacionais. Fala um pouco disso para a gente, como você vê isso?
Renato: No caso dela é uma estratégia de divulgação que ela quer conquistar outros territórios e está aproveitando o funk nesse sentido mas não só ela, Tropkillaz está levando o funk para fora também, e têm alguns produtores que ficam de olho nisso e usam isso mais mercadologicamente no sentido de o gringo faz parceria com a Anitta porque ela tem 10 milhões de seguidores não sei aonde então vai ajudar ele a entrar no mercado brasileiro e ela faz isso com o gringo porque internacionaliza a carreira dela.
Mas no sentido de carreira, dela como artista, como cantora, não sei se ajuda muito não. Como posso explicar? Assim, o nome dela vai para fora e tudo mais mas existe uma coisa muito estranha na carreira da Anitta que é uma distância dela com o público. Vou dar só um exemplo e aí deixo vocês pensarem porque é de longa divagação também, a Anitta não consegue fazer show para 5 mil pessoas, só o show dela, ela vai num festival, toca no Rock In Rio, mas se ela fizer assim “Turnê Anitta”, não consegue vender ingressos para 5 mil pessoas. Como artista, como cantora, ela não tem uma legião de fãs. Ela faz show, faz club, festival mas como artista não leva uma legião de público. Ela está num lugar da carreira dela que está estranho.
Mousiké: Como aquela identificação que automaticamente você procura pelo artista?
Renato: É, como Sandy e Júnior que foi um exemplo recente que eu sei que estavam parados, mas também outras bandas de Rock e vários artistas que tem um público, como AnaVitória por exemplo.
"O funk ajuda a 'quebrar', a 'bagunçar'
Mousiké: Recentemente saiu uma notícia que Gusttavo Lima não saía em nenhum canal de televisão e focou bastante nas redes sociais. Supondo que chegasse alguém com potencial forte para desenvolver um trabalho, você indicaria também que ele tivesse um olhar aberto para TV ou só para internet?
Renato: Depende do artista, tem o momento certo de ir para a TV e para o rádio mas o artista tem que ir. Uma coisa é o Gusttavo Lima fazer isso agora depois que todo mundo já sabe quem é Gusttavo Lima, mas até você ser reconhecido como a pessoa daquela música, precisa ir para a TV. Senão ninguém vai saber quem você é. Você entra aqui e quem é essa pessoa? Não sei. Às vezes o cara é o dono do hit do momento e ninguém sabe quem é, entendeu? Você precisa da TV em vários momentos para fixar a imagem. Aí um artista novo depende da estratégia dele, vários caminhos, mas chega uma hora que tem que ir. Por exemplo o Vitor Kley, tinha época ainda que ninguém sabia que ele era o dono da música “O Sol” que ele era o dono do hit, porque faltava fazer mais TV, faltava as pessoas conhecerem ele mais.
Mousiké: E como é essa parceria entre vocês produtores com o artista que vocês fazem a produção e para eles conseguirem um espaço na TV? Como é esse contato? Vocês falam com eles?
Renato: Dependendo do momento certo a gente sugere, com quem a gente conhece e trabalha com divulgadores na TV. Têm pessoas que conhecem as equipes de produção dos canais e a gente sugere pautas e vai conversando: “olha, a gente tem esse artista e gostaria de apresentar ele no programa”. Se for um programa musical é mais fácil por ser pauta musical, então como o Só Toca Top “olha, nós temos o Vitor Kley, estamos com essa música nova, com esse trabalho” e eles encaixam conforme a pauta deles. Agora se for um programa que não tenha pauta musical e não for a principal, a gente vai tentando encaixar e vendo onde tem uma pauta que tenha a ver. É difícil para caramba e tem seu momento certo para ir.
"O quão complexa é essa cultura? Se você for analisar o funk e os passos como a complexidade cultural deles, é bem mais simples.
Ele é uma expressão cultural só que ele tem uma simplicidade e não tem como fugir disso.
Se a gente como sociedade quiser ser mais complexo e sei lá o que, a gente tem que se aprofundar no conhecimento."
Mousiké: Dos artistas que indicaram para a TV, qual teve mais retorno?
Renato: Puts, você quer saber qual programa dá mais retorno ou qual situação que deu mais retorno?
Mousiké: A situação.
Renato: A situação acho que foi o Vitor Kley com a música “O Sol” e a reportagem sobre a menina que tinha câncer e usava a música para animar ela e motivar ela toda manhã. Aí o Vitor Kley conheceu ela, levou ela para um show, e cantou junto com a menina, enfim também chorou no palco e o Fantástico fez uma mega reportagem e isso num fim de semana e nos dias seguintes o clipe, que já era um sucesso há um ano já, a música teve picos de visualização assim absurdos.
Mousiké: E quando sobe o ego do artista, como lidar?
Renato: Tem que tentar lidar, com psicólogo, conversas e tentar “baixar a bola”.

Mousiké: O planejamento é importante nessa parte também? Para ele não deixar o sucesso subir.
Renato: É mas não há o que se planeja para se tratar disso, ou o artista tem uma índole muito boa e aí sabe pôr o pé no chão e ter uma equipe, um bom exemplo disso é o próprio Vitor Kley, o irmão dele é o empresário dele, as pessoas da família dele é muito boa, são pessoas que estão muito próximas dele e ele é um cara que tem uma índole excelente então acaba ajudando e ele soube aprender com tudo isso e saber que ele continua a mesma pessoa. Mas eu conheço n exemplos de pessoas que não conseguem lidar com isso e acham que são melhor que os outros e acabam criando uma distância entre o discurso e o dia a dia dela. Isso acontece muito e aí você tenta, tenta conversar mas chega um momento que depende da pessoa também.
Mousiké: Fugindo um pouco da parte mercadológica, você acha que o funk tem uma originalidade como teve a Tropicália no Brasil?
Renato: Total, o funk foi criado e reformulado totalmente no Brasil e é uma criação de mistura do Miami Bass com trezentas outras coisas e influências que vai misturando, tem total originalidade, tanto é que não é fácil fazer funk, você acha que é fácil mas não é. É fácil fazer o beat? É, assim como é fácil tocar um acorde e uma progressão de Blues, mas fazer um Blues decente não é fácil. E fazer um funk legal e decente também não é fácil. Tem que saber fazer.

A apresentação de um dos grandes companheiros de Renato,
a mesa de som.
FOTOS: Leandro Alves e Diego Dantas
'quero me divertir' do que protesto"
Mousiké: Toda a composição da música.
Renato: É, com o arranjo, a história, a ideia, a brincadeira, que o funk envolve um monte de coisas mas não é tão simples. É simples fazer um negócio e falar que é funk, beleza mas produzir algo bem feito, é difícil.
Mousiké: Terminando essa parte histórica, de fato então ele é um dos mais criticados na sociedade e agora, em 2018, os “passinhos”, a coreografia do funk já foi considerado um patrimônio cultural. Tem como afirmar que o funk não é cultura?
Renato: Depende da análise que a gente faz com relação a o que é cultura. Se for analisar cultura no sentido de uma expressão do ser humano, sei lá eu nem sou antropólogo, do pouco que eu acredito que seja cultura como uma expressão da sociedade, do ser humano etc, o funk é cultura porque é uma expressão artística que envolve a música, a dança e tudo mais de uma população, nesse sentido, eu acho. Agora as críticas são fundamentadas, algumas delas no sentido de que, é um ponto que acho também que todos precisam ser críticos, o quão complexa é essa cultura? Eu posso estar ofendendo talvez, por isso que fiz a brincadeira do homem das cavernas porque se você for analisar o funk e os passos como a complexidade cultural deles, é bem mais simples se for pensar dessa forma. É como se pegasse um quadro mais simples que não quer dizer que não tenha seu valor cultural e pegasse um quadro extremamente complexo de cores, desenhos, estudo e tudo mais. É nesse sentido. Ele é uma expressão cultural só que ele tem uma simplicidade nessa expressão e não tem como fugir disso. Sendo preconceituoso ou não, tem que saber que é uma expressão mais simples. Se a gente como sociedade quiser ser mais complexo e sei lá o que, a gente tem que se aprofundar no conhecimento. E o funk é um reflexo total da nossa estrutura de escolaridade, na estrutura de educação, é completamente destruída.
A gente tinha música na escola nos anos 70, hoje não tem, só tem uma brincadeira no máximo. Então não tem como você querer que a sociedade faça realmente coisas mais complexas nesse sentido.
"O funk está muito mais hedonista e 'foda-se tudo'

Finalização da entrevista em uma das salas de produção de Renato.
FOTOS: Leandro Alves e Diego Dantas
Mousiké: As produtoras musicais não tem uma exposição mais aberta das produções de funk. Vindo do senso comum, de todos que estão sempre vendo tudo nas redes sociais, YouTube etc, qual seria o futuro? Ainda há essas produções ou acontece em outros lugares?
Renato: Em todos os lugares, ele tem uma característica de ser feito na periferia com baixo orçamento mas têm pessoas que estão evoluindo, chato colocar essa palavra porque parece que o outro não evoluiu, mas têm grupos e produtoras que têm mais recursos e estão ampliando sua estrutura de produção, isso acontece, mas acho que isso está em todo lugar. O próprio exemplo da Anitta, ela produz em vários lugares diferentes, a Ludmilla, Iza, e está crescendo muito isso, têm muitos grupos de produção fortes no Rio de Janeiro, em São Paulo que fazem funk e não são simples. Agora aquilo que falei da simplicidade, o funk pode ser feito num celular, tem muita voz de funk que é gravada no celular, o cara passa para o DJ e produz de qualquer jeito e fica legal. Faz parte da simplicidade dele.
Mousiké: E quando se falam que o funk brasileiro desconstruiu o funk de verdade, que era o de James Brown e quando veio ao Brasil teve essa desconstrução?
Renato: É que são duas coisas diferentes, o funk de James Brown não tem nada a ver com o funk do Brasil, só o nome, até porque o funk do Brasil não tem influência nenhuma no do James Brown, é no Miami Bass que é um estilo de música dos anos 80 eletrônica do eletropop de Miami, foi daí que o funk se inspirou totalmente, com o Furacão 2000. Nos bailes de Furacão 2000 ainda de tocava além do funk que era criado no Rio, ainda tinha o de James Brown, Disco, ou até Hip Hop mas não tem nada a ver a não ser a palavra. Musicalmente não tem relação, então não adianta dizer que desconstruiu porque não vem dali, se falar que o funk do Rio desconstruiu o do Miami Bass, beleza mas aí é normal, é natural, a música é assim, você pega uma coisa, muda e faz outra.
o funk é uma expressão mais simples"

Mousiké: É porque no funk acontece de dizerem que foi desconstrução mas quando o Red Hot Chili Peppers pegou o Rock e mesclou o funk, falaram que foi uma evolução mas no Brasil é desconstrução.
Renato: Mas é porque não tem nada, nada a ver. O Red Hot Chili Peppers bebeu na fonte do funk soul music, assim como vários outros grupos beberam, Bruno Mars, etc mas o funk do Rio não ganhou nada dessa fonte, não tem nenhuma relação, zero, é Miami Bass com mais outras coisas, aí assimilou o pop e brinca muito com o pop e muito com a música eletrônica, têm vários funks hit que pegam o sampley da eletrônica, sampley do pop e aí tudo bem mas não tem nada a ver com o funk original. Uma pessoa que fala isso não sabe o que ela está falando porque ela nem sabe o que é o funk original, o funk soul e não tem nenhuma relação.
Mousiké: Como produtor, o que você espera de um jornalista que trabalha na área cultural?
Renato: Como produtor, que ele entenda, que ele estude, que ele escute, que ele saiba procurar a história, que ele coloque uma análise e eu sei que é difícil fazer até certo ponto imparcial, que é difícil com a arte ser imparcial quando está escrevendo, mas que a parcialidade dele venha da análise e não do gosto próprio dele, que no Brasil é muito raro um bom crítico de música sem colocar a opinião dele como a correta, principalmente no sentido de diminuir e se colocar como se fosse o dono da verdade. Eu leio muito e sempre li resenhas desde antigamente e muita coisa aqui de fora, isso é uma diferença muito grande nessa profundidade de análise. Mesmo quando o cara não gosta ele faz uma análise crítica, ele não denigre o trabalho e o problema no Brasil é ter muito isso.












